sábado, 28 de fevereiro de 2009

Habitação Popular e Cecap Guarulhos


Uma sugestão mais que interessante.
Um assunto que não quer calar.
Um tema que os politicos adoram ver como oportunidade assistencialista.
Um tipo de obra que os empreiteiros sempre conseguiram sair com lucro.
Grandes somas de dinheiro para serem manipuladas pela corrupção.
Ainda hoje conversavamos sobre o Parque Cecap, projeto do Vilanova Artigas, Fabio Penteado e Paulo Mendes da Rocha. Uma proposta de habitação popular para operários da Zona Industrial Metropolitana em Guaruhos, e que as entidades governamentais fazem questão de colocá-la no esquecimento - injustamente. E talvez para afirmar o descaso, o CDHU construiu em áreas remanescentes do Parque algumas unidades do mais baixo padrão arquitetonico e tecnologico de construção, uma verdadeira aberração para os dias de hoje, e uma afronta ao que foi construido pelo menos quase 40 anos passados.
O que seria correto em termos de desenvolvimento cultural, seria aprimorar o que já foi feito e, a cada novo predio as unidades, os condominios, e outros elementos fossem melhorados paulatinamente. Assim criariamos uma cultura do aperfeiçoamento, da eficiencia, do defeito zero, algo que faz muita falta à nossa profissão, basicamente focada na criação do inedito, do diferente a qualquer custo, da autopromoção à custa dos clientes. Poucos profissionais pensam tão pouco nos seus clientes como os arquitetos. Quem sabe, disputamos com os estilistas de moda e os cabeleireiros, que se autopromovem sem pudor com o dinheiro e, no caso deles, com o corpo de seus clientes ( cabelos, pescoços, orelhas, dedos..).
Não sei até que ponto os colegas conhecem o Cecap, pois:
1) Foi pioneiro na planta livre, que hoje é um luxo de apartamentos de alto padrão, mas que no Cecap é para habitação popular;
2) Foi, pelo menos em Guarulhos ( e acredito que na maior parte das cidades do Brasil) pioneiro em ter medidores de água individualmente por apartamento;
3) Foi pioneiro em conjuntos residenciais em construir predios sem caixa dágua, pois todo o conjunto Cecap, com cerca de 8 condominios com 500 apartamentos, é abastecido por uma caixa dágua da concessionária, garantindo assim custos menores de distribuição e, o que é melhor, a garantia de limpeza e manutenção do reservatório.
4) Foi pioneiro em adotar para conjuntos habitacionais populares a caixa de descarga com reservatório acoplado, garantindo maior economia de consumo de água do usual registro de descarga conhecido como valvula hydra;
5) Foi pioneiro em adotar, além da planta livre, um conjunto de caixilhos e de armarios que permite o remanejamento de paredes ( leves), evitando-se que nas reformas alguma parede fique de topo no meio de um caixilho; e os armários modulados que acompanham os montantes dos caixilhos, permitindo o remanejamento de paredes formando apartamentos de 1,2,3 dormitorios nos seus 64m2. Como resultado dessa possibilidade de remanejamento, várias familias lá permanecem desde recem-casados, após terem criado seus filhos ( periodo que exigiu 3 dormitorios), sem precisarem de mudanças de endereço.
6) Foi o pioneiro em considerar que as familias de operarios pudessem ter carro, e cada apartamento tem uma vaga. Nos anos 70, vários apartamentos foram construidos sem garantia de ter pelo menos 1 vaga.
Enfim, essa obra mereceria um pouco mais de atenção dos nossos estudiosos. Aprimorar tal projeto seria uma enorme contribuição para a dignidade da habitação popular de um lado, e de outro, a formação de uma cultura do aprimoramento, de respeito ao usuário ( de qualquer nivel social) até mesmo aqueles clientes que procuram os "arquitetos de grife".
Vamos buscar e formar nossa massa critica de projetos de habitação, buscando talvez desrotular a habitação popular de baixa renda. Se é que os colegas já perceberam ou não, o que está acontecendo é um rebaixamento de qualidade dos imoveis, algo contrário ao que os arquitetos do Cecap propuseram. Os predios de classe dita média está cada vez mais com cara de habitação popular, pois no seu interior querem vender apartamentos com 2 suites em menos de 60m2;e em seu exterior, conseguiram impor janelas que abrem apenas pela metade, que foram criadas nos anos 80 para as Cohabs da vida. Janelas que podem ser questionadas, pois se o vão foi aprovado como 1/5 da area do piso, mas sempre fica metade fechada, ela burla a lei e não deveria ter o "habite-se". Colegas da fiscalização de prefeituras, vamos recusar o "habite-se" desse tipo de burla-consumidor e burla-leis.
Se o velho Artigas se foi, o colega Paulo Mendes da Rocha, agora prêmio Pritsker, quem sabe, gostaria de liderar esse aperfeiçoamento da proposta Cecap. Seria ótimo.
Um grande abraço a todos.
Maryoxi

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