Meu recado.
Eis uma notícia realmente importante. Vejam uma mudança de paradigma: combate à ilegalidade. O fim dos "gatos" de ligações eletricas.
Uma ação contra essa ilegalidade foi feita pela Eletropaulo, na favela de Heliópolis, em São Paulo, cerca de 4 anos passados. Instalou-se na favela alguns medidores com leitura remota, colocados nos postes em posição bem alta inalcançável sem escada. Com esses medidores, houve uma negociação para que as pessoas que adotassem o fornecimento medido teriam alguns equipamentos, como lampadas, geladeira - mas não mencionando ar condicionado - gratuitos, uma tarifa social, e argumentando que a conta de luz seria utilizado como comprovante de endereço.
Não acompanhei os resultados dessa ação, que tinha a caracteristica de uma negociação de forma pacifica.
No caso da favela Santa Marta, na Zona Sul do Rio, houve uma intervenção policial afastando a "proteção" dos narcotraficantes impedindo o acesso das diversas concessionárias na verificação das ligações clandestinas.
Considerando que as concessionárias de eletricidade nunca tiveram prejuizos, mesmo com essas ligações clandestinas, pois provavelmente esse "prejuizo" eram rateados para todos os consumidores medidos, com a eliminação desses "gatos" haverá aumento na lucratividade.
Considerando que muita gente da dita classe media não tem duas geladeiras, ar condicionado, tv a cabo e banda larga, e ainda paga IPTU e outras taxas, por que a dita classe pobre tem esse privilégio?
Considere-se que com a expulsão dos narcotraficantes da favela, o policiamento nesse local precisará ser mantido reforçado para não reverter seu controle,e por isso a favela passará a ter mais privilegios de segurança pública do que muitos bairros da dita classe média, ou dos legitimos "tax-payer"como dizem os americanos. E que essa segurança lhes será oferecida sem nenhuma contribuição no IPTU - que não pagam.
Dessas duas ações, podemos analisar pontos positivos e negativos, tanto para as concessionárias, para o governo, para a população favelada, para a nossa cultura cidadã e para o meio ambiente.
Eu tenho meu ponto de vista, mas seria muito proveitoso para cada um de nós, arquitetos, urbanista, sociologos, politicos, empresários e cidadão, opinarmos sobre essa questão. Fica o desafio...
Com mais segurança, favelas agora começam a receber contas
Seg, 20 Abr, 01h09
O casebre de alvenaria tem 20 metros quadrados, distribuídos em sala, cozinha, quarto e banheiro. Não há janelas. A casa fica no alto de uma escadaria, no meio de um beco. Ao longo de 30 anos de trabalho como faxineira, Terezinha Mesquita, de 59 anos, acumulou bens e conforto. O imóvel, no coração da favela Santa Marta, zona sul do Rio, onde mora com a filha adotiva Júlia, de 9 anos, tem duas geladeiras, TV 29 polegadas, ar condicionado, ventilador de teto, máquina de lavar, chuveiro elétrico e computador. Terezinha não paga um centavo de luz desde que chegou do Ceará, em 1970. É tudo "gato" - gíria para ligação clandestina.
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Até novembro, Terezinha também tinha gatonet (todos os canais da NET, inclusive os de pay per view ) e gatovelox (internet banda larga), pagando R$ 25 mensais por cada serviço. As concessionárias não entravam no Santa Marta, assim como na maioria das favelas cariocas, pois seus funcionários eram expulsos por traficantes. Agora, a ilegalidade está com os dias contados. Depois que a polícia ocupou o território e acabou com o tráfico, abriu caminho para que a Light e outras empresas cobrem por serviços até então "furtados". A conta ainda não chegou, mas promete ser alta.
Terezinha já perdeu a TV cabo, está sem internet e sofre cada vez que pensa na conta de luz, que começará a ser cobrada em julho. Por seis meses, moradores vão pagar tarifa social de R$ 15,72, seja qual for o consumo. Depois, a conta vai aumentando até chegar ao valor cheio.
A conta da legalidade atingirá também a Favela do Batam e a Cidade de Deus, ambas na zona oeste. "Estou cabreira", admite Terezinha, desempregada desde dezembro. "Eu e várias pessoas não vamos poder pagar a conta de luz. Acho que, de cada 100 moradores, cinco podem gastar esse dinheiro." Terezinha sobrevive de bicos e dos R$ 65 que ela e a filha ganham do Bolsa Família.
A tarifa social estipulada pela Light não contempla casos de desemprego. A empresa promete investir R$ 3 milhões para reformar a rede, instalar cabos à prova de gatos, oferecer geladeiras e chuveiros mais econômicos, além de ensinar a economizar energia. Em troca, vai cobrar pela luz, cortar fornecimento de inadimplentes e processar quem fizer gato. "Queremos que os moradores tenham os mesmos direitos e deveres dos outros 4 milhões de clientes", diz José Geraldo Pereira, superintendente de Recuperação de Energia da Light.
Para que as pessoas se acostumem, este mês a empresa emitiu as contas. Ninguém precisou pagar, mas o susto foi grande. "Deve ter tido algum problema no relógio", desconversa José Mário Hilário dos Santos, presidente da Associação de Moradores. Sua conta, que não passava de R$ 6, chegou a R$ 300. Quem não puder pagar a conta terá de abrir mão, por exemplo, do ar condicionado. "Ar condicionado aqui não é luxo, é necessidade. O calor é infernal. É uma casa grudada na outra", defende Santos.
A paz que chegou com a polícia é bem-vinda na comunidade. Difícil é abrir mão do conforto. O governo do Estado já providenciou internet gratuita aos moradores do Santa Marta. Basta comprar um aparelho de R$ 50. Mas TV a cabo virou luxo. E dos caros. Depois que a polícia acabou com o gatonet, nenhuma operadora se interessou em oferecer o serviço aos 9 mil moradores. A maioria não consegue captar nem o sinal da Globo.
Para quem estava acostumado a ver mais de 35 canais, está difícil se acostumar. O garçom Antonio Soares de Azevedo teve de se juntar a um vizinho para dividir a conta da Sky, de R$ 120. "A vida aqui está bem tranquila. Vale a pena pagar mais caro." As informações são do jornal O Estado de S.Paulo.

